Duas declarações do presidente Lula tiveram reação tão negativa que ele próprio voltou atrás publicamente, no X.
“Desequilíbrio de parafuso” (abril de 2023)
Dias depois de um homem matar quatro crianças em uma creche de Blumenau (SC), Lula disse em reunião no Planalto sobre violência nas escolas: “temos quase 30 milhões de pessoas com problema de desequilíbrio de parafuso”. Ativistas e profissionais de saúde mental classificaram a frase como capacitista.
Em 22 de abril de 2023, segundo o Poder360, ele se retratou: “Não vamos mais reproduzir esse estereótipo” e “Não devemos relacionar qualquer tipo de violência a pessoas com deficiência ou pessoas que tenham questões de saúde mental”.
Traficantes “vítimas dos usuários” (outubro de 2025)
Em Jacarta, na Indonésia, questionado sobre as operações dos Estados Unidos contra o narcotráfico no Caribe, Lula disse:
“Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também”
Lula, 24/10/2025
Horas depois, segundo o Poder360, chamou a frase de “mal colocada” e reafirmou posição contrária a traficantes e ao crime organizado, citando a PEC da Segurança Pública e recordes de apreensão de drogas.
Contexto: os ataques às escolas
A fala sobre “desequilíbrio de parafuso” veio numa sequência de ataques a escolas que chocou o país. Em 27 de março de 2023, um adolescente matou uma professora a facadas em uma escola de São Paulo. Em 5 de abril, um homem invadiu uma creche em Blumenau, em Santa Catarina, e matou quatro crianças. O governo reuniu representantes dos Três Poderes para discutir respostas, e foi nessa reunião que Lula fez o comentário.
A crítica de entidades de saúde mental foi que associar violência a transtornos mentais reforça estigma: a maior parte das pessoas com algum transtorno não comete violência. A retratação de Lula usou exatamente esse argumento.
Contexto: a ofensiva dos EUA no Caribe
Em 2025, o governo de Donald Trump passou a atacar embarcações no Caribe que acusava de transportar drogas. Lula foi questionado sobre o tema em viagem à Ásia e criticou a abordagem militar. Ao defender que o problema também está no consumo, disse que os traficantes seriam “vítimas dos usuários também”. A frase foi lida como relativização do tráfico, e Lula a corrigiu no mesmo dia.
O que as retratações mostram
Nos dois casos, a correção veio pelo X, em texto escrito, e não em nova fala. Em ambos, Lula não negou ter dito as frases: disse que estavam erradas ou mal colocadas. Isso diferencia esses episódios de outros em que o presidente ou sua equipe afirmaram que a fala foi tirada de contexto. Veja também as falas de Lula sobre raça, sobre as quais não houve retratação registrada.
As duas falas estão no perfil de Lula.

