Em menos de dois anos, o presidente Lula fez ao menos quatro declarações sobre raça e escravidão que foram criticadas por parecerem relativizar a escravidão ou reproduzir estereótipos. O Raio-X Politik reuniu as falas com data, local e a reação registrada pela imprensa.
Roraima, março de 2023: a “miscigenação”
Na 52ª Assembleia Geral dos Povos Indígenas, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, Lula falava da colonização portuguesa quando disse, segundo o BNews:
“Toda desgraça que isso causou ao país, causou uma coisa boa, que foi a mistura, a miscigenação”
Lula, 13/03/2023
Cabo Verde, julho de 2023: a “gratidão”
Em parada não prevista para reabastecer o avião presidencial na Praia, capital de Cabo Verde, Lula disse ao presidente José Maria Neves, conforme o Metrópoles, ter “profunda gratidão ao continente africano por tudo o que foi produzido durante 350 anos de escravidão”. A frase foi criticada por parecer enaltecer a escravidão em vez de condená-la. São dois episódios diferentes, que às vezes aparecem misturados em buscas na internet.
São Bernardo, fevereiro de 2024: o “batuque”
Na fábrica da Volkswagen, Lula segurou as mãos de uma jovem negra, aprendiz premiada da empresa, e supôs que ela fosse cantora. Segundo o Poder360, disse: “Porque uma afrodescendente assim gosta de um batuque, de um tambor”. O deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP) apresentou notícia-crime à PGR. O ministro da Igualdade Racial, Sílvio Almeida, defendeu Lula e interpretou a fala como reconhecimento da dívida histórica do Brasil com a África, segundo O Imparcial.
Rio Grande do Sul, maio de 2024: “tanta gente negra”
Em discurso em São Leopoldo, durante as enchentes, Lula afirmou: “É impressionante, eu não tinha noção que no Rio Grande do Sul tinha tanta gente negra”, segundo a Revista Oeste. Contou que a primeira-dama Janja respondeu que são os mais pobres que moram nos lugares mais arriscados. No mesmo discurso anunciou o Auxílio Reconstrução de R$ 5.100 por família atingida.
Contexto: por que essas falas repercutem
O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, e recebeu milhões de africanos escravizados ao longo de mais de três séculos. Falas de um presidente sobre esse período são lidas à luz dessa história. Nas quatro ocasiões reunidas aqui, a crítica não foi sobre a intenção declarada de Lula, que em geral falava em reconhecer a contribuição africana, mas sobre palavras que soaram como elogio à escravidão ou como estereótipo.
Entenda: o que diz a lei sobre racismo
A Lei 7.716, de 1989, define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Em 2023, a Lei 14.532 equiparou a injúria racial ao crime de racismo, que é inafiançável e imprescritível. A notícia-crime apresentada pelo deputado Paulo Bilynskyj à PGR no caso do “batuque” é um pedido para que o Ministério Público avalie se houve crime. As matérias consultadas não informam resultado.
As reações
Depois da fala em Cabo Verde, críticos apontaram que agradecer pelo que foi “produzido durante 350 anos de escravidão” equivale a agradecer pelo trabalho forçado. Na fala de Roraima, o trecho sobre a miscigenação como “coisa boa” da escravidão foi criticado pelo mesmo motivo. No caso da Volkswagen, o ministro Sílvio Almeida defendeu o presidente. No Rio Grande do Sul, setores da oposição classificaram a fala como de viés ideológico e racial.
O que Lula disse depois
Diferente das falas sobre saúde mental e sobre traficantes, nas quais Lula se retratou publicamente, as matérias consultadas não registram retratação do presidente sobre nenhuma das quatro declarações sobre raça. Leia também as falas que Lula retirou.
Todas as falas estão no perfil de Lula e podem virar post no Estúdio.

